sábado, 24 de janeiro de 2009

Turbilhão de beijos

O choro, como sabemos, é um legítimo e nativo estilo de música instrumental brasileira.

Turbilhão de beijos é uma valsa-choro de Ernesto Nazareth, um dos mais criativos compositores do início do século XX da música brasileira.

Para ouvir esta música na brilhante interpretação de Wilfried Berk, um clarinetista carioca, descendente de alemães, baixe aqui.  Mais músicas dele.

O poema, pois, que arriscaremos a compor, a partir da sugestão musical e poética é este:

Turbilhão de beijos 

Seus beijos roçam minha'lma,
eu diria extasiado, arrebatado
por Nazareth e sua valsa-choro...

Mas mesmo sem evocar estes tempos idos,
por tanta gente esquecido
atualizarei agora mesmo o que sinto:

- Deixo minha alma, mergulhada no teu beijo,
a viajar, brejeiro, encantado,
pelos caminhos de minha infância
lá onde, por certo, estou protegido
de tudo o que mais tarde me ameaçaria...

Um turbilhão, então, me colhe:
o dos teus beijos, que me levam para longe no tempo,
para onde te carrego, segurando-te firme as mãos...

Sob as árvores do quintal dos meus amigos
naquela casa onde sempre me refugio,
continuo a te beijar e te ofertar as flores
que colhi despreocupado,
em algum trecho do caminho...

Por lá tecemos tantos sonhos!
- o de ficarmos sempre juntos,
nas horas futuras que o tempo
há de garantir, no seu escoar lento;
- o de brincarmos, de verdade, de casinha
com os tantos filhos que já aconchegamos
e carregamos, ao colo, a dois;
- o de pavimentarmos a estradinha
que nos leve longe, além das curvas perigosas.

Assim te beijo, assim me beijas.
Assim te amo. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Literalmente, uma questão de pele...

Contrariwise: Literary Tattoos 
Tattoos from books, poetry, music, and other sources.

Há blogs os mais curiosos. Este, cujo título acima eu solicito os bons préstimos da Graça Martins para a devida tradução, é sobre literatura-em-tatuagens

Versos, prosas poéticas, frases de efeitos, ilustrações, tudo vale!

Vale a visita e como sugestão uma pergunta: 

- que autor e trecho de sua obra merecia ser estampada em sua preciosa pele (mesmo que você não se arrisque a fazer uma tatuagem como essas!)

Eu mandaria imprimir uma cena de Os Miseráveis de Victor Hugo, em que Jean Valjean ajuda Cosette a carregar o balde d'água, naquela noite de Natal, para roubá-la depois dos terríveis Thenardies... 

A propósito, a tatuagem da imagem acima é de Alice no País das Maravilhas...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Saramago indaga, entre outras coisas: de onde vens?









Replicaremos, na íntegra, as breves-linhas escritas pelo Saramago, sobre Barack Obama, presumivelmente no calor da posse deste primeiro presidente americano negro, sobre o qual se depositam tantas esperanças!

Vamos ao texto, que merecer ser degustado lentamente.

Donde?

Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vinhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.

Fonte: http://caderno.josesaramago.org/2009/01/20/donde/