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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

# pré-aquecimento poético de Natal #

O NATAL DE CADA UM

Ah, no meu tempo é que
havia Natal de verdade!
assim suspiram muitos
independente da idade...

Saudosismo renitente?
pode ser insatisfação
um modo de afirmar
por meio da negação.

A verdade, nestes casos,
é a verdade de cada um:
junção do que se gosta
e a fuga ao que é comum.

Retratos particulares, retalho
que se remenda, lembrança
família, amigos, presentes
e a distante infância.

Pois o Natal é, no tempo
este ponto de interseção
em que se concentram
feixes de emoção...

Cada fio de lembrança
evocam pessoas e fatos
que sempre se preserva
na memória ou nos retratos

Como pano de fundo podemos
ter aquele velhinho rechonchudo
ou o nascimento do menino-rei Jesus
e sua encantadora aparição, sobretudo

Podemos ter os laços de família
os momentos ternos de amizade.
em resumo, no entanto, cada qual
arranca do coração sua realidade.

Que este Natal e os outros que virão
seja o que eu, você e ele consiga ser
que carreguemos vivo no coração
o amor que teima em renascer.

Abel Sidney
23dez2014

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Um poema muito apropriado para nos lembrarmos do motivo de existência do Natal...

O Rei  Menino

O estandarte do Rei não é de púrpura e brocado,
é um lírio flutuante sobre o caos
onde ambições se digladiam
e ódios se estraçalham.
O Rei vem cumprir o anúncio de Isaías:
vem para evangelizar os brutos,
consolar os que choram,
exaltar os cobertos de cinza,
desentranhar o sentido exato da paz,
magnificar a justiça.

Entre Belém e Judá e Wall Street
no torvelinho de negociações e equívocos,
a vergasta de luz deixa atônitos os fariseus.
Cegos distinguem o sinal,
surdos captam a melodia de anjos-cantadores,
mudos descobrem o movimento da palavra.
O Rei sem manto e sem jóias,
nu como folha de erva,
distribui riquezas não tituladas.
Oferece a transparência
da alma liberta de cuidados vis.
As coisas já não são as antigas coisas
de perecível beleza
e o homem não é mais cativo de sua sombra.
A limitação dos seres foi vencida
por uma alegria não censurada,
graça de reinventar a Terra,
antes castigo e exílio,
hoje flecha em direção infinita.

O Rei, criança,
permanecerá criança mesmo sob vestes trágicas
porque assim o vimos e queremos,
assim nos curvamos diante do seu berço
tecido de palha, vento e ar.

Seu sangrento destino prefixado não dilui
a luminosidade desta cena.
O menino, apenas um menino,
acima das filosofias, da cibernética e dos dólares,
sustenta o peso do mundo
na palma ingênua das mãos.

Carlos Drummond de Andrade,
in Farewell