sexta-feira, 12 de junho de 2009

Crônicas e ensaios X

Cartola, um sonho


"E eu sei lá?! as rosas não falam..." Cartola

"Bate outra vez, com esperanças o meu coração / pois já vai terminando o verão, enfim..." Todos já ouviram alguma vez na vida esta canção. As rosas não falam, de Cartola, foi gravada por Bete Carvalho, Fagner, Gal Costa e outros intérpretes. Não estamos aqui, no entanto, para falar propriamente das rosas, mas de Cartola.

A vida e a obra dos grandes autores (escritores, compositores, etc) nem sempre se conjugam. Ora a vida suplanta a obra, ora a obra se destaca, apagando a vida. É raro haver uma perfeita sincronia e correspondência entre estes dois aspectos. Com o Cartola houve uma dessas raras conjunções.

Mas quem foi Cartola?, perguntaria alguém das novas gerações.

Angenor de Oliveira (1911-1980), nasceu no Rio de Janeiro e foi um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Sua vida foi marcada por muito sofrimento, motivado por doenças, ausência de reconhecimento à sua obra e problemas financeiros. De origem simples, trabalhou na construção civil e como usava um chapéu coco para proteger os cabelos do cimento que carregava na cabeça, ganhou o tal apelido.

Depois de fundar a Mangueira e compor sambas gravados pelos grandes intérpretes da época (Francisco Alves, Carmem Miranda e outros), aos 58 anos contraiu meningite. Sem outra alternativa, foi trabalhar como guarda e lavador de carros em um edifício em Ipanema. Sérgio Porto, cronista carioca da época, o encontrou tomando café num bar em uma madrugada, todo molhado. Estarrecido, prometeu e conseguiu ajudá-lo a sair daquela triste situação. O que comove, porém, é o depoimento dele, gravado em disco, acerca deste período de sua vida. Transparece aí toda a sua força e serenidade diante das intempéries da vida. O acontecimento é narrado sem qualquer mágoa. Com a palavra Aluízio Falcão, crítico e produtor musical: "Cartola não era uma pessoa queixosa, ressentida, como tantas que habitam o território da arte". Depois deste estágio como lavador de carros, voltou a compor e pode gravar o seu primeiro disco solo aos sessenta anos.

Nos anos setenta tornou-se proprietário de um restaurante no Rio, que evidentemente foi à falência, graças ao seu generoso coração e o seu pouco jeito com os negócios. Enquanto durou o negócio, o restaurante foi palco do reencontro dos brasileiros com o samba, que andava em baixa por aquela época.

Cartola deixou uma extensa obra, muito pouco conhecida, mas hoje felizmente revisitada por muitos intérpretes.

Alguém comentou um dia que Cartola não existiu, foi um sonho. Um sonho verde e rosa. Um sonho do qual não desejaríamos nunca mais acordar...

Seção Requentação (Porto Velho, 11 de novembro de 1998)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Beirute, capital mundial do livro em 2009

Por meio da edição nº 4 da Correio da Unesco descobrimos que Beirute, capital do Líbano, foi eleita a capital mundial do livro deste ano pela Unesco.

Vale a pena a visita ao sítio, que tem na página introdutória uma sequência de fotos que divulgam as belezas naturais e culturais deste país-irmão, que é o Líbano.

Aliás, uma das virtudes da revista Correio da Unesco é nos apresentar informações sob um ponto de vista europeu (ou francês), mais amplo e diversificado do que o americano...

O Correio da Unesco

Recebi mala direta apontando para a revista Correio da Unesco, já objeto de comentário neste blog.

Além de recomendar a leitura, destacamos a presença nas matérias deste número de duas singulares mulheres, pertencentes a dois mundos bem diferentes, mas uma condição semelhante: são rainha e princesa em seus países e pertencem à geração de soberanas sensíveis às causas sociais, além de demonstrarem que engajamento pode se casar perfeitamente com beleza e sensibilidade...

Ei-las:



Princesa Laurentien dos Países Baixos (Holanda) e rainha Rania Al-Abdullah da Jordânia, respectivamente.

Saiba os motivos destas celebridades estarem frequentando as nobres páginas desta conceituada revista!


Na escola do futuro

Proteção do meio ambiente, respeito pela biodiversidade e defesa dos direitos humanos são temas que oferecem novas dimensões à educação. Desde seu lançamento, em 2005, a Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável se traduz por meio de iniciativas cujos ecos são apresentados nesta edição do Correio da UNESCO.

Clique aqui para ler a nova edição do Correio.

André Duarte e suas esculturas inspiradoras

É mesmo de ferro fundido, de aço?

André Duarte esteve na Espanha, tal como o bom poeta que citamos abaixo. João Cabral por lá fez poesia e nos brindou com este poema ímpar. André continua a nos encher os olhos e alma com a sua arte cheia de rigor e inventividade!

André trabalha com material reutilizado (reciclado tem outro sentido, conforme aprendi ainda há pouco em uma feira do conhecimento, na escola dos meus filhos). E sua carreira já aponta para muitos êxitos futuros, com todo mérito.

Vale uma visita à sua galeria virtual. Vá e se prepare para as boas impressões "a ferro e imaginação"!

Já o contactei para a liberação da imagem de suas peças, que bem caberão no material que estou produzindo sobre o nosso patrimônio cultural - o que inclui, é claro, a nossa Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Bom feriado a todos neste Corpus Christi!

O Ferrageiro de Carmona

João Cabral de Melo Neto

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
"Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.
.
Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.
.
O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.
.
Existe a grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.
.
Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.
.
Forjar: domar o ferro à força,
não até uma flor já sabida,
mas ao que pode até ser flor
se flor parece a quem o diga.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Não custa avisar, divulgar...

Recebi mala direta eletrônica da obra aí ao lado.

Além de útil, saltou aos olhos o baixo preço da mesma, em comparação com seus similares - mesmo número de páginas.

Livros mais em conta ainda é novidade (ou efeito de promoção) em nosso País.

Avaliem. Se comprarem, me emprestem.

A nova ortografia sem mistério
do ensino fundamental ao uso profissional

de Paulo Geiger e Renata de Cássia Menezes
Lexikon Editora Digital, 160 p., R$ 16,90
Formato: 12x17 cm
ISBN 978-85-86368-56-1

O único guia da nova ortografia a apresentar cerca de 4.000 palavras e expressões que mudaram em função das novas regras ortográficas

como eram e como ficaram

A nova ortografia sem mistério traduz na estrutura e no texto essa visão, desde o mais simples e geral até o mais específico, desde o conceito até a ferramenta, desde as regras até as próprias palavras. Com esse objetivo, A nova ortografia sem mistério é o único guia da nova ortografia a apresentar cerca de 4.000 palavras e expressões que mudaram pelas novas regras no dicionário. As palavras que mudaram foram selecionadas nos dicionários Aulete Digital ( www.auletedigital.com.br ) e no iDicionário Aulete ( www.aulete.com.br ), que têm 818 mil unidades de informação (verbetes, definições e locuções).

A nova ortografia sem mistério contém:

Cerca de 4 mil palavras e expressões que mudaram: como era e como ficou, um vocabulário que destaca e sintetiza as mudanças.

Explicação simples e acessível sobre a língua portuguesa, sua história e a questão da ortografia.

Uma historinha na nova ortografia.

Guia simplificado e comentado somente do que mudou no Brasil (uma ferramenta de rápido entendimento e fácil de usar).

Todo o Acordo em forma de tabela permite fácil visualização das regras, exemplifica, comenta e indica o que mudou e o que permanece.

O Acordo na íntegra, um documento para guardar e consultar.

Tudo isso num formato confortável para ter na mesa, na estante ou na pasta, para levá-lo consigo a qualquer lugar.


Os autores

Paulo Geiger, carioca, 73 anos, é designer e editor de obras de referência há mais de 40 anos, tendo contribuído com várias editoras, como a Editora Delta, a Encyclopedia Britannica, a Keter Publishing House (Jerusalám), a Nova Fronteira e a Lexikon editora digital. Entre as obras que coordenou e/ou editou, as enciclopédias Delta-Larousse, Barsa, Mirador internacional, Delta Universal, Judaica, Mundo da Criança, Novíssima Delta Larousse; e os dicionários Koogan Houaiss, Caldas Aulete (1985), Aurélio Século XXI, miniAurélio, Aurélio eletrônico, miniAulete, Aulete com a turma do Sítio do Pica-pau Amarelo, Meu primeiro Aulete, Aulete digital, iDicionário Aulete.

Renata de Cássia Menezes, carioca, 44 anos, é pesquisadora, lexicógrafa e lexicóloga desde 1988; especialista em etimologia e morfologia, trabalhou como pesquisadora e lexicógrafa para o mestre Antônio Houaiss durante 8 anos, há 15 trabalha para os dicionários Aurélio (Aurélio séc. XXI, Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, míni Aurélio, míni Aurélio Escolar, Aurélio Com a Turma da Mônica e Aurélio Júnior), há 4 trabalha para os dicionários Aulete digital e iDicionário Aulete.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Crônicas e ensaios IX


O mapa e o homem

"Quanto a mim:
Para mudar
Uma só velha mania
Quantos anos levei!"
                Trecho da poesia "A Vida e a Arte"

Surge de tempos em tempos novas teorias no campo da administração. A maioria prometendo soluções fáceis para velhos e difíceis problemas. Uma análise profunda, no entanto, nos levará a seguinte conclusão: a de que a aplicação de qualquer teoria e o seu conseqüente método tem como limite o próprio homem. O fator humano, a pessoa, é o ponto central do problema.

Como então aplicar as maravilhosas técnicas de administração do tempo, por exemplo, em pessoas cuja formação foi marcada pela indisciplina? Para que uma técnica ou um método qualquer seja aplicado com eficiência, seria necessário o pleno empenho da pessoa em reformular, em mudar velhos hábitos e costumes, o que implica, em última instância, numa nova concepção de vida. O que estimularia, no entanto, uma tal mudança? A perspectiva de melhores salários? A necessidade de manter-se no emprego? É óbvio que o homem se adapta sob pressão ou necessidade aos ambientes de trabalho mais hostis, principalmente sob a perspectiva de vir a perder o emprego. Não estamos tratando, porém, de casos extremos. Nós podemos afirmar, por outro lado, com convicção, que se não houver estímulos e motivações adequados e relevantes, não haverá mudança, transformação real, mas apenas adaptação forçada e provisória.

O ponto central de nossa tese é a que somente com a transformação do homem será possível mudar o mundo (a empresa, a escola, a família, etc). Aliás, existe uma história interessante sobre isto. Conheço-a em duas versões, mas em essência o que se conta é que um pai, extremamente ocupado com uma tarefa que levara para casa, não conseguia concentrar-se, pois a filha tagarelava ao seu lado. Para entretê-la, pegou um mapa mundi, recortou-o e entregou o 'quebra-cabeça' para que ela montasse. Qual não foi a sua surpresa, quando ela, cinco minutos depois retornou com o mapa todo montado. Intrigado, ele perguntou como ela conseguira tal proeza. A menina, muito tranqüila, respondeu que fora muito fácil, pois atrás do mapa havia a figura de um homem. Bastou recompor o homem e o mapa do mundo foi refeito.

Daí a importância da educação. Não a mera instrução, o simples treinamento voltado para o mercado de trabalho, que sabemos ser necessário. A educação integral é a que desejamos destacar. Aquela educação que preocupa-se em moldar um homem novo, mais solidário e responsável. Uma educação que preocupa-se com o raciocínio, o sentimento e o caráter. Enfim, teremos um imenso desafio no próximo milênio, por longos séculos, que é justamente a educação das massas. Se nada fizermos neste sentido, estaremos condenados a viver neste caos nosso de cada dia...

Seção Requentação (Porto Velho, 11 de novembro de 1998)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Crônicas e ensaios VIII

Calendário

"
...se o calendário atrasar / eu faço voltar o tempo outra vez / tudo outra vez a passar" Fagner

Como se sabe, a indústria farmacêutica promove um saudável assédio aos médicos, por meio dos seus representantes. É através dessas visitas periódicas que são apresentados os novos remédios ou reforçado a imagem dos velhos. As famosas amostras grátis de remédio surgem desse contato. 

Além das amostras eles também ganham presentes de toda natureza: de almofada para carimbo a CD, de livros a relógios. Inclusive calendários. Muito bem, o que o tal calendário continha de original era apenas frases. Uma por mês, acompanhada de um desenho que a interpretava. É disso que trataremos. Eis as frases:

Janeiro: Jamais prive uma pessoa de esperança. Pode ser que ela tenha só isso.

Fevereiro: Cante no chuveiro.

Março: Aceite sempre uma mão estendida.

Abril: Saiba perdoar a si e aos outros.

Maio: Respeite todas as coisas vivas.

Junho: Saiba guardar segredos.

Julho: Assista ao nascer do sol pelo menos uma vez por ano.

Agosto: Aprenda a tocar um instrumento musical.

Setembro: Elogie três pessoas por dia.

Outubro: Tenha um aperto de mão firme.

Novembro: Gaste menos do que ganha.

Dezembro: Não reze para pedir coisas. Peça sabedoria e coragem.

Pode parecer filosofia barata, mas não é. Algumas podem pertencer ao gênero "dicas, truques e quebra-galhos", o que não elimina o seu valor. 

"Tenha um aperto de mão firme", por exemplo, é de fundamental importância nos nossos relacionamentos. Dizem alguns que aperto de mão frouxo revela insegurança ou timidez. Ou ainda descaso. Não é preciso, porém, quebrar os ossos alheios. É preciso saber dosar a própria força, convenhamos. 

As frases, por outro lado, proporcionam temas para que se escreva um livro. No entanto, fiquemos apenas com o mês de novembro e a sua sábia advertência: "Gaste menos do que ganha." O autor das frases, deve ter adivinhado que mais um capítulo da crise financeira internacional e brasileira iria nos encontrar em novembro com os bolsos vazios. Que dezembro seja melhor. E que rezemos menos pelos presentes que desejaríamos ganhar e mais pela sabedoria e a coragem que precisamos conquistar para seguirmos serenos, a despeito de tudo.

Seção Requentação (Porto Velho, 6 de novembro de 1998)

PS.: o ingênuo assédio da indústria farmacêutica aos médicos, relatado por mim, há quase dez anos, já caiu por terra... O calendário e as frases continua inspirando.

domingo, 31 de maio de 2009

Crônicas e ensaios VII

Como a classe média trata os seus filhinhos

"Sob o ditames da moda, do sucesso, do fácil, vamos criando um verdadeiro exército de imbecis - ricos, mimados, cruéis..." Pedro Garcia de La Vega

Conversava há poucos dias com uma funcionária do Banco do Brasil. Economista, professora universitária e mãe. Desde os doze anos todos os seus filhos trabalham. Meio período, com critério, mas também com rigor. Trabalho que em nada atrapalhou os estudos deles. Pelo contrário. Bastar ver que estudam em boas universidades, cujo acesso nunca é facilitado.

A sua filha, elas nos contou, dá-lhe hoje os créditos de mãe no sentido maior da palavra. Por reconhecer que os rigores, o 'autoritarismo' e as 'chatices' dela, foram fundamentais para o seu desempenho escolar e para a sua tranqüila vida de estudante. Ela lava, passa, cozinha, estuda (é claro) e sobrevive sem sobressaltos com menos de quatro salários mínimos. A sua colega de apartamento recebe praticamente o dobro e vive emprestando dinheiro. A primeira teve uma mãe que a educou verdadeiramente. Sem cair na cilada do 'coitadinha da minha filha'. Ou do 'tudo o que eu não tive, vou dar a ela'. A outra teve uma mãe que a protegeu, não a preparou para os embates naturais e saudáveis da vida e hoje ela não sabe se conduzir. Talvez aprenda com a colega, se tiver bom senso. Talvez.

Os pais devem ocupar os seus filhos. Trabalho remunerado, voluntário, doméstico, simbólico, o que seja. Porém os pais e mães da nossa decadente classe média teimam em protegê-los, livrando-os do trabalho... E a proteção é tanta que se transforma qualquer adolescente em fase de crescimento em criança de berço. Daí, talvez, o apelido deles: filhinho de papai, da mamãe, mauricinho, patricinha, etc.

O filhinho, ao contrário dos pais, que lutaram, trabalharam, suaram e venceram, não pode trabalhar. Ou se ocupar com alguma coisa útil. Pode ficar traumatizado. Ou ainda atrapalhar os seus estudos (como se alguém conseguisse estudar todas as horas do dia). Nada mais falso. Nada menos saudável. E as conseqüências, senhores, é bem sabido. Uma legião de rebeldes sem causa, sem rumo, sem a mínima disciplina, respeito e noção do que é viver em sociedade.

Muitos argumentam: eles não trabalham porque não encontram emprego. Mas que emprego desejam para os seus filhos? Evidentemente nada que se assemelhe aos que eles tiveram. Eles puderam ser disciplinados, aprenderam a respeitar hierarquia, cumprir horário e outras coisas nem sempre agradáveis mas necessárias. E agora, é de se pasmar, negam tudo aos seus filhos. Eles estão sendo privados de tudo isso. Do que é fundamental na formação de uma criança, adolescente ou jovem.

O que esperar? Que o Exército discipline o seu filho? Antigamente, quando o adolescente estava beirando as raias do crime, existia essa última esperança. Ele iria servir a Pátria e no quartel recebia o que em casa não lhe deram. Noções básicas de educação... E agora, o que fazer?

As meninas também estão sob as asas da proteção dos pais da nossa decadente classe média. Elas já não aprendem mais a trabalhar nas lides domésticas. Não se aprende a cozinhar, arrumar casa, lavar e passar, pois isso hoje é coisa de 'empregada' ou 'secretária'... Motivo? Quase sempre o mesmo: as oportunidades que eu não tive ou tive com muito sacrifício, darei aos meus filhos. De 'mão beijada', sem lhes dar pistas do que sejam as palavras esforço, sacrifício, luta. Essas oportunidades, desse modo, excluem a educação mais básica, aquela forjada na convivência, no espaço simbólico chamado lar, onde se aprende as noções fundamentais de convívio humano. E onde, o mais importante, aprende-se regras de conduta. Estas regras são assimiladas através de tarefas, responsabilidades e isso exige participação, trabalho. Nem que seja o mínimo, quando não haja possibilidades maiores: pelo menos que se lave as roupas íntimas, guarde-se os objetos de uso pessoal e coisas do gênero.

Espera-se que não se poupe tantos os filhos. Se poupança (monetária) nunca rendeu muito e aliás existe mais para preservar valores do que para ampliá-los, o que dizer do fato de se buscar a todo custo poupar os filhos dos embates da vida?!... Eles vão estagnar. Sem riscos, sem dor, sem luta, não há crescimento... Não existe investimento melhor para os nossos filhos, do que lhe darmos trabalho. Acreditem.

Seção Requentação (Porto Velho, 6 de novembro de 1998)

sábado, 30 de maio de 2009

Crônicas e ensaios VI

Os andaimes e os edifícios

"...a ilusão de que somos eternos neste corpo responde por muitas tragédias." Pedro Garcia de La Vega 

Um amigo engenheiro comentou comigo algo sobre a teoria dos andaimes. Ouvira de um colega, durante a construção de um grande edifício em São Paulo, lá pelos anos cinqüenta. Eu a resumirei, lamentavelmente sem a elegância com que ela foi contada. 

Eu já conhecia a palavra andaime. O seu significado e as várias formas de utilização, sempre me chamaram a atenção. Admirei-me, porém, ao descobrir que existia empresas especializadas em locá-las; enfim um insuspeito mercado de provisórios arranjos. Sejam feitos de madeira, de tubos de aço ou de qualquer outro material, os andaimes não permanecem indefinidamente nos canteiros de obra. São colocados ali para cumprir um objetivo passageiro. Após a conclusão da obra, ele é desmontado, reaproveitado ou deslocado para outro local. 

Muito bem, mas o que dizia a teoria dos andaimes do velho engenheiro? 

Que existe na vida humana duas coisas básicas: andaimes e edifícios. Os andaimes são os nossos corpos. Os edifícios simbolizam o nosso espírito em permanente estado de construção. Assim como é difícil perceber qual será a forma de um edifício em obras, quando os andaimes estão à sua volta, da mesma maneira pouco se distingue as nossas construções interiores (há mesmo pessoas que mal conhecem a si próprias, tão preocupadas estão com os seus andaimes). Curiosamente, alguns chegam a afirmar que o edifício em si, após um certo tempo, fatalmente desaparecerá. Naturalmente eles confundem andaime e edifício. Talvez acreditem que o ser more no corpo e nele se resuma. Não é de se estranhar, pois, que ao não se distinguir corpo e alma, as pessoas dêem mais importância ao que é provisório (ao andaime), do que ao que é eterno (o edifício que está permanentemente em construção). Como conciliar, então a estranha crença das pessoas no Grande Arquiteto do Universo (ou Deus) com a idéia de que removido os andaimes (o corpo) desmorone todo o edifício? 

Eu ouvia o amigo engenheiro, que se mostrava sinceramente entusiasmado com as divagações que um simples andaime permitia, quando o alertei que estávamos chegando ao nosso destino; que ele encerrasse o seu raciocínio. E ele o fez: "Que os andaimes sejam importantes, ninguém ousará negar. E o nosso corpo-andaime o é. O que se precisa e com urgência é deslocarmos nossa visão para a obra em construção. Aqueles que tem essa noção costumam cuidar muito bem do andaime, pois terá que prestar contas do seu uso, mais tarde. Mas em nenhum momento podemos deixar de estar atento à construção da obra ou à sua reforma." 

Despedi-me do amigo e seguimos nossos rumos. Se essa teoria se tornar corrente e nos perguntarem como estamos "tocando a nossa obra", o que haveremos de responder?

Seção Requentação (Porto Velho, 28 de outubro de 1998)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Crônicas e ensaios V

Liga-Desliga

"Nem só de pão vive o homem..." Mateus (4:4)

Dia desses eu estava a conversar algumas trivialidades com uns amigos. Comentários despretenciosos sobre certas coisas da vida, algumas engraçadas, outras curiosas. Bate papo com os amigos precisam desses elementos. Muitas vezes é a partir de uma consideração sem maior importância, que nos aprofundamos em assuntos mais sérios. No meio dos citados amigos tinha uma criança. Menina inteligente e sensível, estava ali nos ouvindo, nos espiando. Pude perceber toda essa sua atenção, quando observou, minutos depois, roda desfeita: "oh tio, por que o senhor vive olhando para o tempo?"

Uma boa pergunta. Por que vivemos olhando para o tempo? Esse olhar o tempo, não era um olhar meteorológico, como aqueles que varrem o céu a procura de indícios de sol ou chuva. Era o olhar vago, depois que se perdem em horizontes distantes. Foi o que lhe respondi, ao acrescentar que deixara o meu corpo ali e estava passeando por aí. Que era uma maneira muito barata de viajar; que dessa maneira era possível exercitar a imaginação e outras bobagens mais. Eu ri. Ela também, embora levasse o assunto muito mais a sério. Contou que um colega seu na escola é também assim: "Ele fica uns dois minutos virado para a parede, olhando não sei o quê, depois volta e acorda. Eu pergunto, então, em que ele estava pensando e ele nunca sabe..."

Não sei se é comum a todos esses estados de desligamento, desprendimento. Ou será um estado de pensamento profundo? Um amigo nosso, dado a esses vôos, tem às vezes problemas conjugais graças a estas viagens. Ao voltar à realidade, é difícil explicar à sua esposa por onde ele esteve. 

Partilhar de viva voz o que trazemos de tão longe ou profundo é, às vezes, impossível, ou muito desgastante. É como viver uma experiência inédita, inusitada e tentar descrever para os outros o que se viveu, de imediato, sem que nos deixem descansar da jornada. Faltam-nos palavras. 

A despeito dos pequenos problemas que os estados de alheamento pode nos causar, esse olhar para dentro sempre nos faz bem. Os próprios aparelhos eletrônicos estão sendo programados para trabalhar assim, em stand by, em estado de quase dormência, mas de prontidão; um simples sinal de atividade e eles se reativam. Viver alucinadamente preso aos duros acontecimentos de cada dia, pode nos levar a sobrecargas que nos causam sérios danos físicos e psicológicos. Aprender a ligar-se e desligar-se, dessa maneira, é fundamental. O resto é imaginação, fantasia e sonho. O que recomendamos também nunca se dispensar.

Seção Requentação (Porto Velho, 28 de outubro de 1998)