domingo, 30 de agosto de 2009

Desmandamentos

Os Desmandamentos, por Geraldo Carneiro e Salgado Maranhão

(Este manifesto se rebela contra a banalização indiscriminada da poesia e a palavra aviltada pelos demagogos, e é dedicado aos que julgam que ela não é passatempo de diletantes, mas artigo de primeira necessidade.)

1- Mais uma vez virou moda dizer que a poesia agoniza, ou que a poesia morreu. E de fato ela sempre esteve morta para os não-poetas. E morreu também com Homero, com Dante, com Camões, com Baudelaire, com Drummond e com tantos outros, porque cada poeta é uma via, um beco sem saída. E a poesia é sempre plural: é o lugar dos paradoxos (viva Shakespeare!), do não-senso (viva Lewis Carroll!), mas também é o lugar da verdade. Quanto mais verdadeiro, mais poético, como dizia Novalis. Mesmo quando um poeta faz as suas conficções, acaba em verdades metafóricas. E, nestes desmandamentos, afirmamos que a poesia, quanto mais remorre, mais renasce.


2- É a linguagem que produz a realidade e a poesia. A poesia não tem camisa-de-força conceitual. Aos funcionários públicos da vanguarda, que se acham herdeiros do legado, ela finge que se dá, mas é só o discurso vazio do chefe da repartição.


3- A poesia é um problema sem solução. Felizmente. Ninguém tem a fórmula mágica, ninguém tem respostas para todos. Cada leitor que invente o seu mundo, e o desinvente a seu bel-prazer. Semelhante à culinária, cada qual que ache o seu tempero. Se for significativo, o erro vira estilo. Ou vice-versa.


4- A poesia pode tudo, só não pode ficar prosa ou senhora da razão. O novo não é reserva de mercado, nem nasce a priori. Há que se romper limites, correr riscos, ter lucidez na loucura. Mesmo que seja pelo avesso. (E, cá entre nós, não adianta ficar o tempo todo buscando o absoluto, porque isso já ficou obsoleto. Ao fim de tantos levantes, sejamos, também, irrelevantes.)

5- A poesia não é para quem a escolhe, mas para quem recebe o choque elétrico da linguagem. Não é poder ou privilégio, é um defeito que ilumina. Não vale transporte, não vale refeição, não vale copiar truques ou seguir tutores. Nem apelar, como os demagogos, para o amanhã. Mesmo porque já não há mais Canaã no Deserto dos Sinais.


6- Poema não é cadáver. É um artefato musical que sempre canta, mesmo quando tem horror à música. Quem busca entender o poema apenas cientificamente, dissecando sua morfologia como quem faz uma autópsia, perde a viagem. Conhecê-lo é entrar em seus labirintos, sem separar o corpo de sua subjetividade.


7- Não queremos a poesia prisioneira de uma única arte poética. Seremos clássicos e barrocos; pós-modernos e experimentais. Qualquer tema é e não é poético. Desde os pit-boys de Homero até a aspirina de João Cabral. Com talento, mesmo as formas antigas podem ser recicladas. Sem talento, nem com despacho na encruzilhada.


8- As influências, em geral, são bem-vindas, a não ser quando alijam a voz própria. Há poemas com tantas citações que, se extrairmos o que é dos outros, não sobra bulhufas.


9- Os conchavos e panelinhas fazem parte da natureza humana. Cada grupo tem o direito de inventar os seus heróis, para admirar a própria imagem no seu espelho narcísico. Mas o vôo do poeta é só dele e, sobretudo, da linguagem. A linguagem é o orixá, o poeta é o cavalo do santo. Ninguém é mais do que o que pode ser.


10- O problema da poesia não é só fazer bem feito, mas fazer distinto (no duplo sentido, que implica tanto em diferença, como em elegância). Ela é um exercício vital para manter o vigor da palavra. A poesia não é só questão de verdade, mas de vertigem. Por essas e por outras, é que somos poetas da vertigem: vertigem-linguagem, vertigem-vida.


Último desmandamento:

Pode jogar no lixo todos os desmandamentos anteriores, a não ser que haja sinceridade na poesia. Quem quiser adorar bezerro de ouro, que adore; quem quiser viver de pose, que mantenha sua pose. Mas que haja espaço e fé na poesia. E que ela continue a fabricar futuros, e, como fênix, se destrua e se reconstrua por toda a eternidade e mais um dia.

Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2009/08/01/os-desmandamentos-por-geraldo-carneiro-salgado-maranhao-210136.asp

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Todas as palavras - um sítio onde se pode encontrar palavras...







Ajuda Online para resolver Palavras Cruzadas. Dicionário de palavras. Jogos de palavras!

Estive no Todas as Palavras e me foi útil.

Eu procurava uma palavra que pudesse meter medo e que terminasse em inho. Achei lá. Vizinho. E mais um punhado de outras.

Assim pude dar uns bons retoques na narrativa Os medos do João.



segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Gabo, Gabito, Gabriel Garcia Marques

O mundo virtual e seus labirintos hipertextuais nos conduzem a caminhos nunca dantes vistos. Ao seguir por suas trilhas podemos, pois, reunir e combinar fragmentos de informações coletadas aqui e ali, que se tornarão textos. O resultado pode ser pequenos posts ou escritos mais extensos.

Dito isso, podemos dizer o motivo que nos leva a escrever sobre o autor de Cem Anos de Solidão: simplesmente desejamos transcrever o post de Saramago, publicado ontem, 2 de agosto/2009, em seu diário virtual (cuja coletânea se tornará livro)

Antes, porém, de fazê-lo convém comentar brevemente sobre a autobiografia do citado escritor colombiano, anunciada como "volume um" de uma trilogia: Viver para contar.

Esta portentosa e impressionante obra nos revela algo que eu suspeitava e o Mário Prata tão bem sintetizou: "Lendo sua vida real, vemos que a sua ficção é muito pouco ficção". E isso incluiu os habitantes que nem permanecem, nem se vão completamente, tão bem descritos pelo Gabito: os espíritos, fantasmas ou outro nome qualquer que se lhes atribua.


O assombro que Gabo causa com o seu "realismo mágico", presente em maior ou menor grau em suas obras também fez Saramago perder o fôlego. Pois vamos ao que ele escreveu:

Gabo

Os escritores dividem-se (imaginando que aceitem ser assim divididos…) em dois grupos: o mais reduzido, daqueles que foram capazes de rasgar à literatura novos caminhos, o mais numeroso, o dos que vão atrás e se servem desses caminhos para a sua própria viagem. É assim desde o princípio do planeta e a (legítima?) vaidade dos autores nada pode contra as claridades da evidência. Gabriel García Márquez usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado “realismo mágico” por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem anos de solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de cinquenta páginas. Necssitava pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de orientar-me nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu. Se a palavra traumatismo pudesse ter um significado positivo, de bom grado a aplicaria ao caso. Mas, já que foi escrita, aí a deixo ficar. Espero que se entenda.

http://caderno.josesaramago.org/


Imagens e palavras...

A editora Penguin, de Londres, é famosa tanto pelos seus pinguins estilizados, suas edições de bolso e por constantemente sair à frente das demais com ideias fora do padrão convencional.

Septuagenária, esta casa de livros inovou em lançar obras com preço acessível e "elegância tipográfica", além de ter criado uma máquina que cuspia livros - o "Penguincubator" - acionado por uma moeda de 6 pences (um valor irrisório).

Este preâmbulo conciso é para situar-me e aos leitores quanto à editora que lançou a bela sequência fotográfica abaixo, à qual ouso casar um poema meu:

O valor da palavra

Dou-te minha palavra
Que uma imagem vale
Quantas palavras
Puder expressar.

Devolvo-te em palavras
Expressas em números
Desses que podem ter
Qualquer valor
(Caso me engane)
Que nada vale mais
Que o próprio valor.

Ora, se o valor em si
Está expresso
Naquilo que o contém
Palavra e imagem
Equivalem-se.

A despeito da lógica
Convenhamos:
Existe algo melhor
Que trocar certas palavras?

Pode-se contestar
Que o valor intrínseco
Do que se troca
Não é igual.
O que vale dizer:
Dá-se lucro ou tem-se prejuízo.

Para finalizar reafirmo
No mais perfeito e são juízo:
O que se dá, multiplica-se
O que se retém, se esvai
Se a imagem não é perfeita
O remendo com palavras se faz.

É isso.
Abel Sidney

domingo, 2 de agosto de 2009

Poema também é para essas coisas...

Sabe aqueles erros que poderiam ter sido evitados se...

...tivéssemos sido mais prudentes, mais diligentes (zelosos, cuidados, aplicados, ativos, e portanto, menos preguiçosos e levianos)...

Pois é, diante da dificuldade de mudar velhos e arraigados hábitos vamos colhendo dissabores, sem necessidade.

Não vou submeter os meus ocasionais leitores aos meus problemas pessoais, pois não farei deste espaço um confessionário.

Mas podemos, poeticamente, cuidar disso, pois a poesia pode propiciar reflexões que transcendem os limites do nosso adorado umbigo, transmutando o "meu" em "nosso"...

Assim fiz nos poemas abaixo e no próximo que farei, sobre as pedras de tropeço já vistas, antevistas e ainda assim pisadas, chutadas para infelicidade do nosso pobre e desprotegido dedão:

A vida e a arte
- Escrevo melhor que sou
Dizia, humilde, o velho poeta.
Eu concordava, mudo.
- A poesia eu reescrevo,
Lapido, dou polimento...
Quanto a mim:
Para mudar
Uma só velha mania
Quantos anos levei!
Este sorriso que você vê,
Há décadas ensaio.
Não como ator, que finge
Mas como autor, que sou.
Se ele é hoje menos amargo
Custou-me muitas lágrimas.
Ainda dizem que a vida imita a arte!
A arte é que deveria meter-se na vida
E dominá-la, submetê-la...
Alguns não resistem a ela
E se entregam: esses são os grandes.
Conversa encerrada. Eu, mudo.
Assino embaixo.

Pendências

Não desejo deixar mais nada pendente:
Nem pingente, nem roupa seca tomando poeira no varal...

Recolher a todo instante o que esvoaça
E roçando passa promovendo atrito,
Pois manter pendências é exatamente isto:
Deslocar legiões de fantasmas a nos assombrar
Como as lembranças fugidias, das quais tentamos em vão escapar...

Estou fazendo devassa, levantando tudo o que vaga
Pelas paredes sujas, pela bagunça das gavetas
Pelo sótão da memória bem abarrotada
De quinquilharias não devolvidas
De promessas feitas e jamais cumpridas

Desejo agora tão somente o que possa
Dar firmeza e rumo ao chão:
Pedras soltas em meio aos dormentes
Destes feitos com madeira de lei
Para melhor assentar os trilhos
E poder seguir viagem...

E pensar que por deixar pra trás tanta coisa
Que tinha ou devia fazer
Que tudo fosse virar poema, ocupando a leitura alheia!

Por tudo o que seja sagrado, peço pois a meu leitor:
Não deixe nada pra depois e nem adie o que fazer!!

Por fim, buscando rima para finalizar este poema
Algo que rime com Bandeira Nacional – digna de ficar pendente
Nos postes, nos mirantes, ao alto, tremulante,
acabei, agora, por encontrar em meio às lembranças
uma frase simples, talvez apenas pra mim especial:
“Quando cumprimos à risca todos os deveres
O sentimento que brota no coração é tão compensador
Que nada no mundo se torna igual”....

Breve surto poético II - 26 abril 2007 (revisto hoje)

sábado, 20 de junho de 2009

Reflexões oportunas

Saiu mais um número do informativo online do Correio da Unesco (acesse aqui.).

O tema em foco é a diversidade cultural. Tenho lido aos poucos os pequenos artigos, que merecem ser degustados. Não é assunto corriqueiro que possa ser engolido às pressas, como fast food. É comida simples, mas que exige um ritual mínimo - sentar-se, acomodar-se, olhar o cardápio para as devidas escolhas, mirar à nossa volta, perceber o mundo que nos circunda...

De tanto retornar à mesma página acabei atraído pelo ícone aí abaixo,
com o título de UNESCO: atualidades, onde me deparei com a simpática submarina amarela e me informei:

Neste mês, o destaque das atualidades da UNESCO é o Patrimônio Cultural. A fim de sensibilizar crianças e adolescentes para o Patrimônio Cultural Subaquático, a Organização associou-se a «Dive Olly Dive!», uma série de desenho animado que relata as divertidas expedições de dois jovens submarinos que aprendem a navegar em um centro de pesquisa dos fundos oceânicos.

Enfim, eis que já se está a valorizar até o mundo subaquático e os seus tesouros (materiais e imateriais)...

Enquanto aqui, na superfície do nosso mundo periférico (particularmente Rondônia, na Amazônia Ocidental, Brasil), estamos ainda a buscar meios de explorar exaustivamente todos os recursos possíveis - naturais e humanos - para acumularmos bens de consumo de toda natureza, mas principalmente aqueles que deixarão a marca de "pouco durável" na esteira do tempo, impossível de tornar-se herança aproveitável às próximas gerações!!

Tanto mar, tanto mar... eis a distância a nos separar dos ideais da Unesco. Milhares de léguas a serem vencidas, a nos apontar o déficit educacional, que em muitos aspectos nos envergonha!

Quando ouvirmos alguns profetas de plantão, aparentemente loucos, nos falar da importância de educarmos as massas, de lutarmos por uma "educação pública de qualidade, democrática e gratuita" para todos (a despeito dos chavões de mau gosto), estejamos mais atentos, no mínimo!

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Crônicas e ensaios X

Cartola, um sonho


"E eu sei lá?! as rosas não falam..." Cartola

"Bate outra vez, com esperanças o meu coração / pois já vai terminando o verão, enfim..." Todos já ouviram alguma vez na vida esta canção. As rosas não falam, de Cartola, foi gravada por Bete Carvalho, Fagner, Gal Costa e outros intérpretes. Não estamos aqui, no entanto, para falar propriamente das rosas, mas de Cartola.

A vida e a obra dos grandes autores (escritores, compositores, etc) nem sempre se conjugam. Ora a vida suplanta a obra, ora a obra se destaca, apagando a vida. É raro haver uma perfeita sincronia e correspondência entre estes dois aspectos. Com o Cartola houve uma dessas raras conjunções.

Mas quem foi Cartola?, perguntaria alguém das novas gerações.

Angenor de Oliveira (1911-1980), nasceu no Rio de Janeiro e foi um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Sua vida foi marcada por muito sofrimento, motivado por doenças, ausência de reconhecimento à sua obra e problemas financeiros. De origem simples, trabalhou na construção civil e como usava um chapéu coco para proteger os cabelos do cimento que carregava na cabeça, ganhou o tal apelido.

Depois de fundar a Mangueira e compor sambas gravados pelos grandes intérpretes da época (Francisco Alves, Carmem Miranda e outros), aos 58 anos contraiu meningite. Sem outra alternativa, foi trabalhar como guarda e lavador de carros em um edifício em Ipanema. Sérgio Porto, cronista carioca da época, o encontrou tomando café num bar em uma madrugada, todo molhado. Estarrecido, prometeu e conseguiu ajudá-lo a sair daquela triste situação. O que comove, porém, é o depoimento dele, gravado em disco, acerca deste período de sua vida. Transparece aí toda a sua força e serenidade diante das intempéries da vida. O acontecimento é narrado sem qualquer mágoa. Com a palavra Aluízio Falcão, crítico e produtor musical: "Cartola não era uma pessoa queixosa, ressentida, como tantas que habitam o território da arte". Depois deste estágio como lavador de carros, voltou a compor e pode gravar o seu primeiro disco solo aos sessenta anos.

Nos anos setenta tornou-se proprietário de um restaurante no Rio, que evidentemente foi à falência, graças ao seu generoso coração e o seu pouco jeito com os negócios. Enquanto durou o negócio, o restaurante foi palco do reencontro dos brasileiros com o samba, que andava em baixa por aquela época.

Cartola deixou uma extensa obra, muito pouco conhecida, mas hoje felizmente revisitada por muitos intérpretes.

Alguém comentou um dia que Cartola não existiu, foi um sonho. Um sonho verde e rosa. Um sonho do qual não desejaríamos nunca mais acordar...

Seção Requentação (Porto Velho, 11 de novembro de 1998)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Beirute, capital mundial do livro em 2009

Por meio da edição nº 4 da Correio da Unesco descobrimos que Beirute, capital do Líbano, foi eleita a capital mundial do livro deste ano pela Unesco.

Vale a pena a visita ao sítio, que tem na página introdutória uma sequência de fotos que divulgam as belezas naturais e culturais deste país-irmão, que é o Líbano.

Aliás, uma das virtudes da revista Correio da Unesco é nos apresentar informações sob um ponto de vista europeu (ou francês), mais amplo e diversificado do que o americano...

O Correio da Unesco

Recebi mala direta apontando para a revista Correio da Unesco, já objeto de comentário neste blog.

Além de recomendar a leitura, destacamos a presença nas matérias deste número de duas singulares mulheres, pertencentes a dois mundos bem diferentes, mas uma condição semelhante: são rainha e princesa em seus países e pertencem à geração de soberanas sensíveis às causas sociais, além de demonstrarem que engajamento pode se casar perfeitamente com beleza e sensibilidade...

Ei-las:



Princesa Laurentien dos Países Baixos (Holanda) e rainha Rania Al-Abdullah da Jordânia, respectivamente.

Saiba os motivos destas celebridades estarem frequentando as nobres páginas desta conceituada revista!


Na escola do futuro

Proteção do meio ambiente, respeito pela biodiversidade e defesa dos direitos humanos são temas que oferecem novas dimensões à educação. Desde seu lançamento, em 2005, a Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável se traduz por meio de iniciativas cujos ecos são apresentados nesta edição do Correio da UNESCO.

Clique aqui para ler a nova edição do Correio.

André Duarte e suas esculturas inspiradoras

É mesmo de ferro fundido, de aço?

André Duarte esteve na Espanha, tal como o bom poeta que citamos abaixo. João Cabral por lá fez poesia e nos brindou com este poema ímpar. André continua a nos encher os olhos e alma com a sua arte cheia de rigor e inventividade!

André trabalha com material reutilizado (reciclado tem outro sentido, conforme aprendi ainda há pouco em uma feira do conhecimento, na escola dos meus filhos). E sua carreira já aponta para muitos êxitos futuros, com todo mérito.

Vale uma visita à sua galeria virtual. Vá e se prepare para as boas impressões "a ferro e imaginação"!

Já o contactei para a liberação da imagem de suas peças, que bem caberão no material que estou produzindo sobre o nosso patrimônio cultural - o que inclui, é claro, a nossa Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

Bom feriado a todos neste Corpus Christi!

O Ferrageiro de Carmona

João Cabral de Melo Neto

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
"Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.
.
Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.
.
O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.
.
Existe a grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.
.
Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.
.
Forjar: domar o ferro à força,
não até uma flor já sabida,
mas ao que pode até ser flor
se flor parece a quem o diga.