sábado, 16 de janeiro de 2016

Alinhavar :: Um verbo, uma história...

 - Vou repetir: a-li-nha-var... A-li-nha-var. Anotou? Deixa eu ver!

Eu não quis mostrar e retruquei:

- Já escrevi e estou indo aos Correios passar o telegrama.

- Certo, mas leia antes, toda a frase, em voz alta.

- Passos largos exigem discernimento (ponto) Não é necessário qualquer pressa (ponto) Alinhavar primeiro, como te ensinei (exclamação).

- Está bom. Corra e quando retornar você me explicará o que eu quis dizer ao seu irmão.

- Vou tentar!

Dante, meu tio alfaiate, viveu para os outros. Tornou-se solteiro aos poucos, como ele dizia, a começar pela artrose que deixou meu avô inabilitado para ajudar nas pequenas tarefas de casa, como puxar água do poço.

Dizem que foi nesta ocasião que despontaram suas habilidades de inventor de pequenas soluções.  Por isso, talvez, tenha se tornado o dono do maior número de ferramentas que já vi em toda minha vida. Até uma plaina de marceneiro ele tinha!

Bem, naquele dia voltei correndo dos Correios, sentei-me, respirei fundo (como ele me ensinou) e comecei minha explicação:

- Tio, eu acredito que o Carlito está desaprumado, como o senhor diz. E desassossegado. Na pressa de comprar barato, ele acabará se dando mal!

- Bom! O que mais?

- Comprar no atacado exige sabedoria. Não é somente preço. Tem que saber apreciar a qualidade, o estado da mercadoria e a quantidade mínima que eles impõem.

- Perfeito! Você está se saindo muito bem. Sabe ouvir e raciocinar. Arremate, por favor.

- Bem, então, ele tem que alinhavar primeiro, não é?

- Sim, é o que está escrito no telegrama... Você não conseguiu entender o sentido?

- Não, tio, não consegui.

- Observe, então, o que estou fazendo.

Ele conduzia a agulha e a linha perfurava no tecido, marcando, fazendo pontos, como ele dizia. Pontos numa barra de calça. Eram pontos grandes. Em menos de um minuto terminou as duas barras.

- Viu? O que eu fiz?

- O senhor preparou a barra, com estes pontos, para costurar depois.

- Isso mesmo. Eu alinhavei. Agora eu posso chamar o dono desta calça e pedir que ele experimente para ver se a altura está correta. Posso desmanchar os pontos e ajustar para cima ou para baixo...

- Ah, tio, então o senhor quis dizer ao Carlito que ele não feche logo o negócio em cada compra para não se arrepender depois?

- Exatamente. Como comprador de primeira viagem, sem noção de alguns truques, vão empurrar artigos de segunda, terceira categoria; vai acabar comprando gato por lebre.

- Aconteceu isso com o senhor também?

- Não, nunca consegui ir a São Paulo comprar diretamente nos grandes atacadistas, como era meu sonho tempos atrás. Pensei até em ter meu próprio bazar... Mas aprendi a negociar a distância. Sou capaz de dizer o endereço de cada armarinho no Brás, como chegar lá e qual o nome do melhor vendedor.

- É tio, o senhor poderia ganhar o mundo com esta sua inteligência!

- Poderia se eu tivesse aprendido tudo num curto período de tempo... Vocês me acham habilidoso, mas não avaliam em que condições eu aprendi fazer isso ou aquilo. Como eu cuido dos seus avós, sou passarinho preso!

- O senhor voaria muito alto, tio, eu isso eu sei!!

- Para compensar vou preparar os sobrinhos que desejarem sair do ninho mais cedo. Por isso você está aqui me ajudando.

- Eu sei tio, eu sei...