sábado, 10 de janeiro de 2015

A menina que tinha ouvido de mercador

Ela não ouvia mesmo. Ou fingia não ouvir. O fato é que se colocava a salvo dos chamados da mãe.

A atenção, o envolvimento com os brinquedos, diriam alguns, desvia do ouvido infantil qualquer chamado.

Não se sabia se era o caso, pois em casa ela ouvia bem. Quando atravessava a cerca da casa vizinha, porém, apagava-se o sentido da audição.

A audição aguçada é para poucos, li em algum lugar. Diziam os antigos que os tuberculosos, por conta do isolamento a que eram forçados, tinha este sentido muito apurado.

Ter ouvido de tuberculoso pode ser, hoje, sinônimo de enxerimento, de se desejar ouvir mais do que se deve, principalmente coisas da vida alheia.

E o ouvido de mercador? Nem sempre os comerciantes estão dispostos a baixar o preço de suas mercadorias. Daí eles ignorarem, sem nenhuma solenidade, nossas propostas de barganha.

Hoje a menina atravessou a cerca para o lado de lá.

Do lado outro não sei o que existe ao certo, além do quintal cheio de árvores e uma varanda nos fundos da casa da vizinha.

É comum que algumas crianças cheguem até a cerca, do lado de cá, atravessem este limite tão frágil e venham aqui brincar.

Estas outras meninas ouvem muito bem. Questão de genética? Pouco provável. Os comportamentalistas talvez expliquem o caso por meio dos estímulos e reações. Como elas podem apanhar da mãe quando desobedecem, costumam prontamente atender ao chamado.

A menina brincou por lá, mas não estava cumprindo o combinado.

Mãe adora combinar horário. Dá segurança. O controle fica à mão, nos ponteiros do relógio. Relógio que pulsa, por vezes, nos compassos do coração. Ou da razão, quando o coração não aguenta mais...

Com criança o tempo é algo mais vago, sem recipiente que o comporte.

- Volte logo! Não vá demorar, senão da próxima vez...

Os filhos, da adolescência até mais um pouco, costumam ser vigiados, rigorosa ou frouxamente, nos seus horários de entrada e saída.

Além do relógio, existem outros indicadores do tempo e de seu controle, como o galo. E quando o galo canta e ele ou ela ainda não chegou? A aflição vai tomando conta e sufocando até que haja sinais de que eles estão vivos... Nessas horas, não há hora que passe. Elas escorrem pastosas, agonizantes.

Como a menina não estava cumprindo o combinado, ouviu-se o chamado.

Estava na hora que ela deveria voltar. Como reforço, a mãe foi até a cerca e a chamou. E chamou, chamou, chamou. Nada. Quem veio atender? Outra menina, com um recadinho:

- Ela está almoçando e não poderá ir agora pra casa!

“É muito folgada mesmo!” - pensou a mãe. “A abusada ainda explora a colega... Quando ela chegar nós teremos uma boa conversa!”.

- Você não ouviu eu te chamar?

A mãe não quis saber de conversa e exerceu o seu direito de corrigenda. Levou a mão à sua orelha. Dela sim, da criança. Porque orelha de criança dizem ter função educativa. Recomenda-se, no entanto, dosar a força. Corrigenda não é o mesmo que espancamento. Pede bom senso.

- Você não tem limite, não é?

Limite? Ela até parecia saber do que se tratava:

- Está bem, mãe, da próxima vez eu não demoro mais. Eu vou obedecer.

Da orelha a mãe, no entanto, não largou até que ela entrasse na cozinha.

O choro foi breve e logo ela voltou a brincar.

Eu que assistia a tudo, de coração meio partido, pus-me a refletir que aquilo era tão somente um freio, o limite necessário à educação dos filhos, que pode ser imposto ou negociado de muitas maneiras.

Limites que ela haveria de levar consigo pelo resto da vida, como baliza, roteiro, rumo certo.

É possível que outras correções fossem ainda preciso, mais tarde, quem sabe até algumas surras, mas nada que viessem a deixar as marcas do rancor, da mágoa.

Rigor de pai e mãe é solúvel em água. Depois de algumas lágrimas tende-se a esquecer.

Os limites impostos, estes não, são os cintos de segurança que se leva para a vida inteira.


Ah sim, a menina está ouvindo melhor e aprendeu a voltar para casa. Passa bem e promete ser uma criança normal. Queira Deus!

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