sábado, 21 de março de 2015

SE É PARA O BEM...

O velho e bom latim carrega em seus vocábulos, utilizados fartamente na linguagem jurídica, suas "razões de imediata aplicação" em circunstâncias corriqueiras ou emergenciais. Quer ver? 

- Doutor, eu tinha que fazer aquilo!

- Como assim, cliente?

- Uma voz me dizia...

- E o que ela dizia? 

- Que o meu caminho já estava traçado... 

- Mas que caminho? 

- O caminho para o fim. 

- Fim do dito cujo? 

- Não, doutor! Também estudei e sei que fim é o mesmo que objetivo. Os objetivos nobres podem ser chamados de missão... Eu tinha, portanto, uma missão. 

- Que raio de missão, meu cliente?!

- Criar os meios para se atingir o fim, ora!

- Ahn?!

- Isso não é filosofia, doutor? Não é lógica pura?

- Sim, mas que fim, que objetivo, que missão importante era essa? Estão te acusando de ter matado uma pessoa... Eu espero não ouvir de sua boca que você é o assassino... Aliás, não ouvirei, pois aos advogados conversas de cunho confessional não convencem. O que importa são os fatos. E o fato é que você não estava presente na cena do crime.

- Doutor, eu não estive lá, materialmente falando, é verdade. Mas sei que foi meu pensamento que lá se materializou, de alguma forma. 

- Tu é leso, é? Você não vai dizer isso ao juiz, vai?! 

- E quem acredita em "poder do pensamento", doutor? 

- Sim, claro! 

O advogado respirou aliviado. Restava uma questão, porém, a esclarecer: 

- E que "meios” são estes “para se atingir o fim"?

- Quando se criam as condições para que uma vingança seja executada, isso não é o mesmo que prover meios para se atingir um fim pré-determinado?

- De certa forma, sim. Mas aonde você quer chegar?

- Eu apenas "devolvi" àquele sujeito a ameaça que ele me fez. Só pensei (eu juro!) que tudo que ele me desejasse, de todo coração, que ele tivesse em dobro. Foram dois tiros, não foi? 

- Sim. Mas e a tal da missão?

- Sou gari, doutor. Minha tarefa de todo dia é limpar a cidade. Mas naquela hora eu me imaginei desejando varrer do mapa, da vida, todas as pessoas que vivem para humilhar os mais simples... Ele era muito abusado, pisava na gente. 

- Mas teve o que mereceu! 

- Não sei, doutor, não sei. E o que eu e você mereceremos, por nossa vez? Somos pecadores... Eu não devia ter desejado tão firmemente que ele recebesse de volta o que me desejava! 

- E o que ele te desejou que eu ainda não sei?! 

- Ele disse que pessoas como eu, que se metem a fazer tudo certinho, merece uma bala nos cornos, para deixar de ser besta! E que ele me meteria uma bala, se não custasse muito caro... Disse mais: que eu não valia "uma vela acesa".

- Não vá dizer que a praga da "vela apagada" foi você quem jogou?

- Como assim, doutor? 

- No velório do dito cujo não ficou nenhuma vela acesa... Foi você quem desejou isso?

- Foi sim!

- E o que mais? 

- Não posso dizer.

- Ah, você me dizer sim, do contrário...

- O senhor está me ameaçando, doutor? Vê lá, hein, eu não tenho controle sobre os meus pensamentos e desejos... O senhor que se cuide!

- Eu, você está louco?! Isso foi só força de expressão... Mas se você puder me contar, sou de todo ouvido. 

- Conto nada! Descobri esta semana que não basta eu pensar, doutor. As coisas só acontecem depois que comento com alguém. Aí o mal ganha força e sai pelo mundo causando desgraça. Da minha boca não sairá mais nada! 

- Ufa! Ainda bem. 

- Mas ontem, doutor, eu comentei com a minha esposa, que o senhor é muito careiro; que se não conseguisse negociar um preço melhor eu acabaria amaldiçoando o senhor e todos os advogados do mundo! Ô raça que se aproveita dos necessitados!!

- Meu cliente, você já ouviu falar do pro bono? 

- Ainda não, mas eu gostei da sonoridade! É latim? 

- Sim, é uma citação latina e significa "para o bem". 

- Para o bem de quem, doutor?! 

- De todos. Principalmente do senhor, que passará a ter o meu serviço gratuito, desde agora. Farei justiça! O senhor, além de inocente, é um homem de poucas posses.

- Doutor, o senhor é muito gentil... 

- Imagina! É um dever meu prestar serviços voluntários, vez ou outra... E desta oportunidade eu não abriria mão de maneira alguma!

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