quarta-feira, 29 de junho de 2011

Histórias inacabadas (iv)

O labirinto 
  
Num certo dia de aula lá estava a profª Carmem às voltas com as correções dos exercícios de matemática da 2ª série. Os meninos, seus alunos e alunas, estavam no recreio.

Um deles, porém, permaneceu em sala. Cabisbaixo, com o queixo entre as mãos, observava lá do fundo a professora. Ela nem mesmo notara a sua presença, tão em silêncio este estava.

Não demorou muito, porém, e ela sentiu acionar aquele alarme feminino – uma espécie de radar especial que as mulheres desenvolveram para a luta pela sobrevivência (contra os homens, inclusive!). O radar indicava que olhares estranhos se deslocavam em sua direção... Quando levantou os olhos, tomou um susto!

Não imaginou que o Fernando estivera todo aquele tempo ali a observá-la. E com um olhar que denunciava o que ela apenas ouvira falar de meninos e meninas das séries mais adiantadas – um olhar apaixonado, entrecortado de pequenos suspiros e alimentado possivelmente pelas mais ingênuas fantasias... Pelo menos foi no que ela desejou acreditar!

O que passaria por aquela cabecinha, indagou Carmem. “Sabe lá Deus”, ela mesma respondeu... “Mas por que não perguntar?”

E foi o que fez. Delicadamente, com todos os cuidados que o caso exigia.

– Fernando, diga-me por que está aqui e não lá fora, meu filho!?

Este “meu filho” fora dito de propósito. E o menino não titubeou:

– Professora, não vou mentir para a senhora. Estou aqui para admirá-la.

“Como?” pensou Carmem, estonteada. Respirou fundo e preparou-se para uma longa conversa...

– Mas desde quando eu sou digna de admiração, Fernando?

– Ah, professora, desde que eu te conheci!!

– Ah, sim!! – foi o que conseguiu responder Carmem. E pensou com os seus botões: “Estou numa enrascada...”

– ... então não deve fazer muito tempo–, emendou a professora.

– Faz sim!! Eu sempre fui seu vizinho. A senhora não se lembra da minha mãe?!

– Sua mãe, sua mãe...

Carmem procurava ganhar tempo, para vasculhar a memória, para encontrar uma saída e sair do labirinto em que se metia, cada vez mais fundo.

– É, minha mãe, a Dirce, a sua cabeleireira!!

– Então você é filho da Dirce, Deus meu!! E você nunca me contou nada! Por que manteve segredo todo este tempo, meu filho? A Dirce é o que a gente pode chamar de amiga. Quando vou ao salão conversamos tanto...

– E é por isso que eu sei tudo da senhora!!

“Ah, meu Santo Antônio!! Que diacho esta mãe andou falando de mim?”, perguntou Carmem a si mesma, já aflita. E indagou do menino:

– O que, por exemplo...?

– Nenhum segredo, não, professora!

– Agora eu quero saber! Fiquei curiosa.

Curiosa, preocupada, ansiosa. Tudo isto junto. Carmem, de olho no relógio, sabia que o sinal iria tocar em poucos minutos. Teriam que adiar a conversa para outra ocasião.

Assim aconteceu. Quando Fernando ameaçou contar o que sabia, tocou a sineta.

Suspirando, Carmem, julgou ter sido salva pelo gongo. Com a aula retomada danou a buscar uma solução para a delicada situação.

Decidiu, depois de algumas explicações sobre as operações de subtração, contar uma história para a turma. Desta forma, acreditava encontrar uma saída para desembaraçar-se das tramas em que se via envolvida.

Tomou o giz e escreveu no quadro três palavras-chave para guiá-la no enredo da história que criaria de improviso, como sempre fazia.

As palavras era um bom retrato do seu estado de espírito: labirinto, floresta, medo. Antes de começar a narrativa ordenou:

– Consultem o dicionário para saberem com exatidão o significado destas palavras. Eu vou à diretoria e volto logo. O Fernando será o monitor do dia.

“Preciso mantê-lo bem ocupado”, pensou consigo.

Foi para fora da sala, a fim de respirar, de concatenar as idéias (uma das suas frases favoritas e muito apropriada para a situação).

Na diretoria, a sós, deixou-se afundar na macia poltrona que existia num dos cantos. Durante alguns minutos fechou os olhos e procurou descansar. Em vão... O olhar implacável de Fernando a perseguia.

Enfim, levantou-se e decidiu voltar para a sala de aula, contar logo a história, para ver se encontrava meio de desembaraçar-se, de sair daquela agonia...

Na volta à sala de aula, Fernando fez o relato breve dos ocorridos na sua ausência, nada de grave tendo ocorrido.

Carmem começou, então, a história:

No seringal do seu Walmar existia uma escola. O professor era seu Geraldo, bom moço solteiro, que não se casou para cuidar da mãe, velhinha e doente. Sua mãezinha se foi, ele ficou – e o seu tempo passou. Dizia não ter mais jeito para cuidar dessas coisas de namorar, noivar, casar – nem mesmo tempo tinha, pois os alunos tomavam todas suas horas de descanso.
Na verdade, mesmo que quisesse, este professor só conseguiria candidata se andasse uns dois dias pela mata para chegar a outro seringal, onde poderia encontrar moças em tempo de casar - quase sempre por volta dos quinze anos.
Mal sabia Geraldo que uma menina de sua sala estava se encantando por ele...
Luzia, onze anos, não lhe desgrudava os olhos.
Suspirava, e sonhava, e se deixava ficar lá no seu canto, no fundo da sala, a imaginar a casa que ela desejava ter: com um grande quintal, bem elevada do chão para não entrar bicho; muito limpa; com cortina em todas as janelas e uns quadros na parede, além de uma folhinha bem bonita para marcar os dias que haveriam de passar sem pressa nenhuma...
Na hora do almoço - continuava ela a sonhar - ele chegaria da escola, cansado e com fome. A comida já estaria na mesa, quentinha, lhe esperando... Quando chegassem os filhos os dois ficariam brincando com as crianças na espaçosa sala ou as levariam para banhar-se no igarapé.
Assim se ocupava Luzia, a sonhar casada com o próprio professor, que nem de longe suspeitava o que ia pela imaginação solta da menina, até que...

3 comentários:

catarse disse...

Meu caro amigo que historia bonita. Os personagens são ficticios?

Abel Sidney disse...

E aí, meu caro?

Pois é, a gente nunca sabe onde finda realidade e começa a ficção, pois tudo se mistura e se confunde;)

Daí que somente posso afirmar que os personagens são verossímeis.

Lucas França de Souza disse...

É catarse, até eu sou filho me pergunto isso... e várias vezes.